No último dia deste ano...
Decidi dar largas ao meu descontentamento. Todos sabemos o que sucedeu na Ásia. Penso que desde o último século o mundo nunca tinha assistido a uma catástrofe natural tão grande e devastadora. O número de mortos continua a aumentar e espera-se o pior. O que me choca no meio disto tudo é a estupidez e a insensibilidade dos meios de comunicação social e dos povos ocidentais. Turistas ocidentais são entrevistados e salientam o trauma resultante da experiência vivida. Pobres coitados, sobreviveram à pior catástrofe natural conhecida, vão voltar para casa e para os confortos ocidentais e, mesmo assim, vão ficar com um trauma tremendo... Então e as pessoas que residem naqueles países e que ficaram sem nada, mas mesmo sem nada no sentido literal da palavra. É certo que muitos turistas ou morreram ou perderam familiares e amigos, mas no geral vão voltar para o sossego dos seus países ocidentais e desenvolvidos, mas o que dizer dos outros? Dos tailandeses, dos indianos, dos indonésios entre tantos outros que perderam tudo, perderam as casas, as famílias, as terras... O futuro que se lhes avizinha é horrível e assustador.
Tenho estado esta semana a ouvir os noticiários e deixa-me triste e revoltada que as nossas televisões só se interessem em nos fazer lembrar do trauma que os turistas sofreram... Pior ainda foi o que ouvi da boca que uma menina rica portuguesa, entrevistada pela sic, enquanto esperava por embarcar para a Tailândia. Ela respondeu o seguinte à jornalista quando esta lhe perguntou se estava triste com toda aquela situação: "Sim, claro, agora já não vou ter todas as condições de férias que iria ter se por acaso não tivesse acontecido nada disto. Por outro lado, estou contente, porque vejo as coisas mais ao natural, como elas são." Ao natural?????? Sem comentários.... nem vale a pena comentar face a tanta estupidez e preconceito...
Espero apenas que aqueles países consigam voltar à normalidade possível e que as palavras bonitas dos países desenvolvidos não se percam durante a passagem do ano... E já agora, um Bom Ano de 2005.
Amália Rodrigues - Povo Que Lavas No Rio
Povo que lavas no rio
Que talhas com teu machado
As tábuas do meu caixão
Há-de haver quem te defenda
Quem compre o teu chão sagrado
Mas a tua vida não
Fui ter à mesa redonda
Beber em malga que esconda
Um beijo de mão em mão
Era o vinho que me deste
Água pura, fruto agreste
Mas a tua vida não
Vida de mundo e de lama
Dormi com eles na cama
Tive a mesma condição
Povo, povo eu te pertenço
Deste-me alturas de incenso
Mas a tua vida não

A uma alma
Pudesse eu mudar-te
amar-te-ia e serias meu.
Pudesses tu mudar-me
amar-me-ias e seria tua.
Não te posso mudar, nem alterar o teu sol e a tua lua,
nem o universo sobre o qual te assentas e observas.
Nem te quero mudar porque nao te quero amar, nem quero que sejas meu.
Mudar-me-ias se pudesses?
Amar-me-ias e seria tua se pudesses?
Não podes, não posso, não podemos mesmo se quisessemos...
E será que queremos?
Só sei isto, que te amaria se me mudasses,
e que me irias amar se alguma vez te conseguisse mudar...
Velhice
Ser-se velho está a tornar-se algo horrível. Numa sociedade comandada por ideais de juventude eterna não há espaço para idosos cujas forças são poucas. Tenho uma vizinha já com muita idade que hoje, novamente, caiu na rua quando vinha das compras. Apesar dos filhos terem um nível socio-económico elevado, nenhum deles está interessado em ajudá-la. Queriam colocá-la num lar mas ela recusou tal oferta. Uma das filhas é divorciada e vive sozinha mas não pensa sequer em levar a mãe para casa. Está fora de questão permitirem que a pobre mulher contrate uma dama de companhia. Aparentemente, quando a senhora enviuvou há uns anos, os filhos ficaram furiosos ao verificar que a herança que o pai lhes deixara era menor do que pensavam. Não tiveram qualquer problema em atacar a mãe, dizendo que ela e o pai tinham andado a gastar dinheiro a mais. Desde quando é que são os filhos que controlam as finanças dos pais? Posto isto, eles só estão à espera que a mãe feche os olhos para consumirem sofregamente a dita herança... Triste, não é?
Ouvi ainda um episódio caricato. Uma jovem de 34 anos ainda vive na casa dos pais, eles já com cerca de 70 anos, e embora trabalhe e ganhe bem já lhes perguntou quando é que eles irão colocar o nome dela na conta bancária deles. Com 34 anos e ainda espera que os pais lhe passem o dinheirinho todo para as mãos? Estou mas é a ficar preocupada com isto tudo. Se agora é assim, como não será daqui a vinte anos? Que tipo de sociedade é esta? Será que anda em curso um programa de formação de monstros humanos?